à procura, nesta noite vã, procuro
no escuro das vielas das lembranças
essa luz que havia em tempos nas janelas
que era a luz reflexo só do meu olhar
à procura, sem saber porquê, procuro
a centelha que recuso pensar morta
essa luz que havia em tempos nos meus ohos
essa luz que com o tempo se fez pó
à procura, e nem sei o que procuro
se era a ânsia, se a cegueira, se a loucura,
se era a dor, a voz da dor, ou o gemido
que em papel era palavras e sinais
à procura dessa voz que houve em mim
dessa fonte das palavras que vai seca
como os rios da minha terra que hoje são
cicatrizes na paisagem e memórias
e lá longe, numa terra abandonada,
só os velhos ‘inda falam desses rios,
leitos secos, coisas velhas, coisas vâs
o passado é mais um leito destes rios
casa ardida, terra seca de palavras
bosque findo para nunca mais voltar
e da veia que em mim seca ninguém fala
só eu choro, que sei ser vão tentar
que das lágrimas no chão renasça o rio
Julião
D., 2004