Barcos
que cruzam o rio lembram-me a casa,
os poemas secretos, o gosto fútil do absinto;
A borboleta rosa confunde-se com flores e seduz-me
e então, ébrio de ternura, rasgo os meus lençóis.
Na minha
estrada, encostado às poucas árvores da berma,
abrigo-me do frio num manto de pó, de noite;
e estendo o braço ao que desejo, e alcanço o que não
quero
e então, cinco vezes mais, dissolvo-me em mim mesmo.
A alameda
de crisântemos que desce até ao mar
pinta-me os olhos de cansaço cada noite que a percorro.
E no fundo das garrafas escondo as frases que não digo,
e no fundo de mim escondo as cicatrizes do desprezo.
(e)
a substância do meu ser é uma crisálida de sonhos,
o negro das minhas asas um prazer indefinido.
A borboleta rosa confunde-se com flores e seduz-me
e então, ébrio de paixão, mergulho com ela no
Sol.
Julião
D., 1990